Edição 01 - Maio de 2015

ATUALIDADES PRÁTICAS DE ENRIQUECIMENTO AMBIENTAL EM CRIAÇÃO E MANUTENÇÃO DE ROEDORES

A criação e manutenção de animais de laboratório está em evidente desenvolvimento científico e tecnológico. A busca por modelos experimentais mais adequados, a criação de linhagens mais específicas, a biotecnologia da reprodução e as tecnologias dos sistemas de manutenção  dos animais passam por um período de grande evolução no Brasil. O objetivo fundamental é ter animais melhores, certificados, que garantam a reprodutibilidade e eficiência experimental.
Concomitantemente, ocorre um fenômeno mundial de popularização dos anseios de proteção dos animais, sobretudo, aqueles de produção e usados em pesquisas biomédicas.
O bem-estar dos animais de laboratório no Brasil, talvez, surja dessa demanda mista de animais mais adequados para os experimentos e da exigência social de que os animais vivam e sejam mantidos em condições ditas humanitárias.
 
Independente das questões morais envolvidas no uso experimental de animais em pesquisas biomédicas, é natural nos aprofundarmos na ciência do bem-estar animal.
Nesse contexto, devemos estar familiarizados com o conceito de ser senciente, o princípio dos 3Rs defendidos por Russel e Burch, a partida lançada por Ruth Harrison em “Animal machines” de 1964, as cinco liberdades postuladas por John Webster em 1979 e outros.
Claro que a difusão do bem-estar animal enquanto ciência sensibiliza mais pesquisadores a cada dia. Hoje, um tópico forte no tema é como incrementar a qualidade de vida dos animais de laboratório por meio do enriquecimento ambiental.
 
A idéia de enriquecimento ambiental surge na ciência com Donald Hebb em 1947 da observação que animais mantidos em ambientes estimulantes tinham maior facilidade de apredizagem. Em 2003, Young conceituou enriquecimento ambiental como “técnica que deve propiciar estímulos sensoriais e motores por meio de atividades cognitivas e desafios em acordo com a espécie para promover bem-estar psicológico”.
Fundamentalmente, ao aplicar essas técnicas corretamente, busca-se reduzir os fatores de distresse, aumentar a taxa reprodutiva, reduzir a taxa de mortalidade infantil, reduzir os níveis de agressão entre as colônias e, consequentemente, obter animais melhor certificados e resultados mais confiáveis nos experimentos.
 
Atualmente, para animais selvagens mantidos em cativeiro, esta é uma realidade importante, por vezes, rotineira para que os espécimes sejam mantidos com o maior bem-estar físico e psicológico possível. Para animais de zoológicos, é comum a utilização desses recursos de enriquecimento ambiental na alteração de características do alojamento, na mudança da rotina alimentar, na introdução de mobílias e modificações das exposições e interações sociais com indivíduos da mesma espécie ou de espécies diferentes.
Para animais de laboratório, dado o espaço limitado e caro de um biotério, rotinas de manutenção que demandam praticidade, necessidade de dieta padronizada e riscos envolvidos na mudança de ambiente social dos espécimes, cada situação deve ser estudada particularmente.
Para indivíduos mantidos em biotérios de criação por longo período, a eventual introdução de um componente alimentar diverso pode produzir os efeitos positivos do enriquecimento ambiental sem gerar consequências danosas nas taxas de reprodução ou perda da qualidade dos recém-nascidos. Entretanto, para experimentos, essa prática pode conduzir a um viés que é extremamente indesejável, que compromete os resultados, leva a utilização de mais espécimes por grupo experimental, maiores custos e todas as outras consequências.
De forma semelhante, devem ser utilizadas muito criteriosamente a troca de indivíduos entre colônias ou mini-isoladores diferentes. Certamente, nunca devemos fazer trocas entre espécies ou linhagens diferentes. Por questões sanitárias e de padronização da colônias, também, não é recomendável a troca de indivíduos hígidos e infectados, de fêmeas gestantes ou lactentes e de indivíduos que não possuem mesma origem ou não tenham passado por quarentena.
 
A modificação dos alojamentos com segmentação dos espaços nos mini-isoladores ou bloqueio de áreas é um recurso extremamente barato e que produzem um resultado bastante satisfatório, especialmente, com fêmeas gestantes e lactentes. Nesses casos específicos, é comum a fêmea encontrar um local mais tranquilo para o parto ou criação de sua ninhada evitando estresses relacionados à insegurança dos filhotes à supostos ataques. Entretanto, nem sempre essas técnicas são viáveis em biotérios grandes ou de rotina pesada.
A utilização de mobília é a forma de enriquecimento ambiental mais frequentemente aplicada a biotérios de roedores. Tubos, iglus, substratos diferentes de diversas granulações e mesmo máscaras cirúrgicas utilizadas como redes são objetos que atraem muito os roedores. De modo geral, camundongos, ratos e hamsters gostam de fazer ninhos e realizam muitas interações sociais nesses espaços, incluindo o estabelecimento de níveis hierárquicos. Objetos que estimulem esses comportamentos são boas pedidas.
Entretanto, alguns cuidados devem tomados. A variação de objetos é importante para manter os indivíduos estimulados. A mobília deve ser uma novidade sempre, caso contrário ela passa a ser usada apenas como mais um objeto como o bebedouro, por exemplo.
 
Além disso, o tipo de material utilizado deve ser o mais inerte possível.
Tubos que podem ser comidos alterando a dieta padrão, colas que possam causar reações alérgicas ou tóxicas e materiais não estéreis são desaconselháveis. Por mais importante que o enriquecimento ambiental possa ser, nada pode comprometer a sanidade do ambiente. Cuidados especiais também devem ser tomados com materiais opacos e quepossam prender filhotes.
Em termos de ciência, ainda há muito a fazer na etologia relacionada às diversas técnicas de enriquecimento ambiental. Contudo, a maioria dos biotérios costuma contar com importantes aliados, os técnicos bioteristas. Esses profissionais costumam entender na intimidade o que de fato funciona e a relação custo-benefício de cada técnica. Não é prudente programar uma nova etapa da manutenção do biotério sem consultá-los previamente. Por fim, não subestimem a criatividade na criação de novas técnicas.

RAFAEL SENOS

Doutor em Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres – USP

Mestre em Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres – USP

Médico Veterinário – UFF

Técnico em Biotecnologia – CEFETEQ-RJ

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