TÓPICOS NA ANATOMIA DE RATOS

Edição 03 - Março de 2016

A ciência de animais de laboratório avança a passos largos no Brasil e traz consigo a demanda por informações sobre as espécies utilizadas. Dados biológicos básicos específicos como anatomia, fisiologia e comportamento, embora relevantes, são muitas vezes desconsiderados no planejamento experimental. Infelizmente, a maioria dos cursos de graduação e pós-graduação não contempla esses segmentos nas grades obrigatórias da formação tradicional.

            A demanda por tais conhecimentos pode ser exemplificada pelo interesse no curso “Introdução à dissecção anatômica de ratos”, oferecido de 2011 a 2015 (UFF 2011, USP 2012, UFF 2013, UFF 2014 e UFRJ 2015), na forma de extensão universitária. Em 2011, a maioria dos interessados era composta por alunos de Medicina Veterinária com interesse em dissecção. A edição 2012 foi marcada pela presença de 10 alunos de doutoramento. No retorno do curso ao Rio, em 2013, as vagas do curso foram esgotadas na semana do evento e os alunos tinham perfil misto de graduação e pós-graduação. No ano seguinte, a mesma quantidade de vagas esgotou em três semanas após a abertura das inscrições, um mês antes do evento. Já em 2015, com uma oferta superior, as vagas foram completadas em menos de 24 horas de abertas as inscrições,  2,5 meses antes da realização do evento. Além disso, o perfil da turma UFRJ-2015 indicou que apenas 25% dos alunos eram da área de Medicina Veterinária e cerca de 50% eram alunos de pós-graduação ou profissionais que atuam com pesquisas biológicas, perfil bastante diferente da primeira edição. Em 5 anos da criação do curso de extensão, alunos e profissionais de Medicina Veterinária, Medicina, Biomedicina, Enfermagem, Ciências Biológicas, Educação Física, Odontologia, Biblioteconomia, curso técnico de Biotecnologia e curso técnico de Análises Clínicas e técnicos de biotérios de nível médio realizaram o curso.

Estes dados demonstram que a inserção da Ciência brasileira, em um panorama mais competitivo, tem forçado os grupos de pesquisas a repensar seu modo de agir com relação aos aspectos éticos e de planejamento experimental. Até recentemente, a responsabilidade no uso de animais na experimentação científica recaía, quase exclusivamente, nos pesquisadores e alunos envolvidos nos experimentos. Contudo, em razão de diversos fatores, o comprometimento com o uso ético e com o bem-estar, passou a ser uma obrigação de todos: pesquisadores, técnicos, alunos e sociedade civil, organizada ou não. Nota-se uma crescente conscientização do pesquisador moderno, que busca reduzir os vieses técnicos de seus estudos, ao mesmo tempo em que aplica os conceitos dos 3Rs e de bem-estar animal.

O rato (Rattus norvegicus) é, provavelmente, a segunda espécie mais criada e utilizada na maioria dos centros de pesquisas nacionais, ficando atrás apenas do camundongo. Mais de 1,5 milhão (das cerca de 25 milhões) de publicações indexadas no MEDLINE referem a essa espécie, dada facilidade de manejo e reprodução, adaptação às condições laboratoriais, refinamento genético e relativo baixo custo de criação e experimentação. Contudo, não é incomum encontrarmos trabalhos com críticas aos desenhos experimentais por falhas nas considerações dos parâmetros anatomofisiológicos.

Alguns aspectos anatômicos podem ser relevantes e interferir nos resultados experimentais. Apresentam-se, a seguir, alguns tópicos nesta temática. Começando pelo esqueleto do rato, o número de vértebras segue a fórmula de sete cervicais, treze torácicas, sete lombares, três sacrais e vinte e cinco caudais. Trata-se de uma coluna vertebral semelhante a dos cães e gatos domésticos. Estudos que usam ratos como modelos de trauma medular devem estar atentos a essa biomecânica singular dada posição quadrupedal e longa cauda. Cada modelo de trauma deve seguir um padrão bem específico, a fim de evitar viés provocado pelo grau de flexão das articulações intervertebrais nos diferentes segmentos da coluna. A órbita do crânio deste mamífero é incompleta, apresentando o ligamento orbital entre o osso temporal e o frontal. Frequentemente, não é encontrada fusão entre o osso maxilar e o osso temporal. No membro torácico, diferentemente dos animais domésticos, o rato apresenta um osso clavicular articulado com a escápula. Em adição, no conjunto dos ossos cárpicos, encontra-se a fusão do carpo radial e o intermédio, chamado de Carpo Intermédio-radial e dois carpos incomuns, o Central e o Falciforme. Já no membro pélvico, caudalmente a Articulação Femorotibiopatelar, cada uma das duas porções do Músculo Gastrocnêmio possui um osso sesamóide chamado de Fabela que se articula com o fêmur por meio do Ligamento Femorofabelar. O conjunto de ossos társicos, também é diferenciado pela ocupação do Tarso I nas fileiras central e distal e presença de dois ossos sesamóides entre as fileiras proximal e distal, ossos Sesamóide do Tarso e Tibial Medial.

Com relação aos aspectos musculares, características importantes são notadas no amplo Músculo Cutâneo do Tronco que se insere no úmero, juntamente com o Músculo Grande Dorsal, e que pode levar a confusão em acessos cirúrgicos ou coletas na cavidade torácica, plexo braquial e região medial do úmero. A musculatura glútea também possui peculiaridade pela presença mínima ou ausência da Fáscia Glútea e largo Músculo Glúteo Superficial discretamente distinto da borda cranial do Músculo Bíceps Femoral. Ambos os fatores podem dificultar a dissecção ou acesso ao osso Coxal, Articulação Coxo-femoral e nervos Glúteo Cranial, Glúteo Caudal e Isquiático.

No aparelho digestório, pode-se destacar a fórmula dentária 2 x [ I11 + C00 + P00 + M33], totalizando 16 dentes e, portanto, baixa ou nula função de laceração e trituração de alimentos. O Estômago único apresenta metade de sua mucosa rica em glândulas, enquanto a outra metade é aglandular, sobretudo, próximo a região da cárdia. Outro aspecto relevante desse sistema encontra-se na dimensão do Ceco. Seu comprimento superior a 5cm em alguns espécimes favorece a digestão microbiana. Embora os tratados o retratem comumente nos quadrantes lateral esquerdo e inguinal esquerdo, nas dissecções observa-se o Ceco no plano mediano ou mesmo no antímero direito. Essa distribuição irregular do Ceco deve ser lembrada na interpretação de imagens radiográficas ou ultrassonográficas e, ainda, no planejamento de experimentos com dietas específicas.

Ainda no sistema digestório, o Fígado merece atenção especial por ser composto de cinco lobos muito controversos na literatura. Podem ser chamados de lobos Lateral Direito, Medial Direito, Quadrado, Esquerdo e Caudado. O lobo caudado é subdividido em processos Caudado e Papilar; o último apresenta duas partes não nomeadas. É sabido que o Fígado possui vascularização celíaca e mesentérica e seus lobos são supridos em proporções diferentes. Isso indica que os lobos do Fígado trabalham com certa independência, embora a divisão anatômica não corresponda exatamente à divisão funcional. Estudos toxicológicos e farmacológicos devem planejar cuidadosamente os lobos a serem analisados, pois, dependendo do sítio de absorção, a substância seguirá um percurso vascular específico. Desta forma, atingirá em maior concentração um lobo específico ou conjunto de alguns lobos; raramente o órgão inteiro. Ressalta-se que a coleta aleatória de tecido hepático possibilita a ocorrência de falha experimental grave.

O Sistema Respiratório reserva particularidade significativa aos pulmões. Diferentemente do humanos e semelhante às espécies de mamíferos domésticos, o pulmão direito apresenta 4 lobos, o último, mais caudal, chamado de Lobo Acessório. O pulmão esquerdo possui característica mais diferente. Externamente, é encontrado único parênquima, não fissurado, ou seja, aparenta ter um lobo apenas. Contudo, a distribuição brônquica revela dois brônquios secundários (cranial e caudal). Lobectomias experimentais no pulmão esquerdo demandam secção do parênquima único e, portanto, maiores lesões teciduais. Os diagnósticos por imagem precisam considerar essas particularidades.

A intenção em discutir tópicos da anatomia dos ratos é lembrar àqueles que utilizam este modelo animal que a negligência aos aspectos morfofuncionais específicos da espécie e suas linhagens pode levar a falhas experimentais que são, na verdade, evitáveis. Na execução de técnicas cirúrgicas, diagnóstico por imagem e coleta de tecidos, é necessário considerar os aspectos anatômicos específicos para que, consequentemente, exista clareza sobre a eficiência do modelo adotado e adequada interpretação dos resultados obtidos. A busca pela redução do número de animais utilizados nas pesquisas e refinamento experimental faz emergir a necessidade de incentivos na educação formal nas áreas de Anatomia e Fisiologia de Animais de Laboratório. Embora uma ciência antiga, a Anatomia volta a ser valorizada para contribuir com o bem-estar animal.

RAFAEL SENOS

Doutor em Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres – USP

Mestre em Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres – USP

Médico Veterinário – UFF

Técnico em Biotecnologia – CEFETEQ-RJ